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Anorexia
Painel Online
Diário de uma anoréxica
 
 Darlene de Paula - darlene_cdi@yahoo.com.br
 
 
"Débora da Fonseca afirma que o tratamento multiprofissional é fundamental para a repleta recuperação do paciente".
 
 
“Vomitei trinta vezes em um só dia. De tanto vomitar passei a não querer comer mais, sentia nojo do alimento. Quanto mais ficava magra, mais me achava gorda. Cheguei a pesar 38 quilos e tenho 1,71 metros de altura”. Este é o depoimento da ex-modelo fotográfico Giovana Torim Belloto, vítima de bulimia e anorexia nervosa, respectivamente aos 15 e 18 anos de idade.
Segundo a psicóloga Débora Cristina da Fonseca, esta é uma realidade no mundo da moda, em que jovens, seduzidos pelo padrão de beleza imposto pela sociedade, tendem cada vez mais a entrarem em sistemas de dietas pesados e prejudicarem seu próprio organismo, em busca de fama e sucesso momentâneo. De acordo com a psicóloga, os jovens, lembrando que os transtornos alimentares não escolhem sexo e nem idade, geralmente apresentam uma visão distorcida da sua própria imagem, quando não se reconhecem magros.

A nutricionista e psicanalista Denise Giacomo da Motta explica que  “transtornos alimentares (TAs) são doenças que acometem a mente e o corpo. Os padrões estéticos dominantes, que supervalorizam a magreza e estimulam a busca de um ideal de beleza questionável e inatingível, contribuem para o aumento da ocorrência dos TAs, principalmente entre as adolescentes. A mídia, reflexo da sociedade, impõe o padrão de magreza como sinônimo de beleza, mas paradoxalmente também estimula o consumo de alimentos altamente calóricos e pouco saudáveis”.

Aos 18 anos, quando estava fazendo cursinho para tentar o vestibular, a jovem ia pelo menos uma vez por semana ao Hospital Santa Casa de Misericórdia, em Piracicaba, para tomar soro porque não se alimentava. Giovana ficou um ano e meio sem comer, só à base de líquidos. “Quando saia com os amigos ou ia em festas de aniversário, comia e logo depois vomitava. Durante este tempo ninguém sabia destas minhas dificuldades quanto a alimentação, nem mesmo a minha mãe. As pessoas só começaram a desconfiar depois que eu emagreci muito”, lembra Gio

A iniciativa de levar Giovana ao médico foi da mãe, que teve papel fundamental na recuperação da filha. A jovem desmaiava muito, em qualquer hora e lugar, e também já havia contato que estava vomitando com frequência. Esses fatos começaram a preocupar a mãe de Giovana, que obrigou a filha a procurar um gastroentereologista.

Durante estes três anos, entre os 15 e os 18, Giovana era modelo fotográfico e desfilava de vez em quando. “Aos 18 anos fui dispensada pela agência por causa da minha imagem cadavérica. Fiquei um ano sem fazer trabalhos fotográficos e durante este período estive sob tratamento médico e psicológico”, conta a jovem que também revela que durante a doença perdeu cabelo, a pele escamou e a visão ficava turva de vez em quando.

Hoje Giovana, com 23 anos, está curada, mas continua se tratando com um gastroentereologista devido à úlcera decorrente dos transtornos alimentares que ela enfrentou a partir de seus 15 anos.

Transtornos alimentares mais comuns

Os transtornos alimentares prevalecentes na atualidade são a anorexia nervosa, a bulimia e o transtorno de compulsão alimentar periódica. Os dois primeiros são mais frequentes entre adolescentes do sexo feminino, mas também ocorrem em outras idades e entre os homens.

De acordo com a nutricionista e psicanalista Denise Motta, a anorexia se caracteriza pela recusa alimentar, ou seja, não há uma verdadeira falta de apetite, mas a pessoa se recusa a aceitar a alimentação, tem desejo de negar ou vencer a fome, evitar a incorporação do alimento e o que ele representa, que pode ser a figura da mãe, da família, do crescimento ou da própria vida.

A recusa alimentar, por sua vez, se traduz em perda considerável de peso, podendo chegar à desnutrição grave. Segundo Denise, atualmente a doença está associada à preocupação exagerada com o risco de engordar, com alterações na percepção corporal e disfunções endócrinas, como atraso no desenvolvimento puberal e ausência de menstruação, nas mulheres.  “Mas as causas do problema são mais profundas e se relacionam com as experiências precoces na área da alimentação, como o aleitamento materno, as práticas de desmame e a alimentação infantil”.

Ele afirma ainda que a superproteção e as expectativas exageradas que os pais depositam em seus filhos, o nível de exigência que o adolescente interioriza e projeta no próprio corpo e o medo de se tornar adulto também podem influenciar no desenvolvimento desses transtornos. “Resistir à fome, privar-se do alimento e emagrecer acaba sendo uma forma de se autoafirmar, de demonstrar autocontrole e poder, ao mesmo tempo em que demonstra sua fragilidade e necessidade de proteção e cuidado”, finaliza Denise.

Já a bulimia se caracteriza pela ingestão compulsiva, descontrolada e rápida de grande quantidade de alimento, com pouco ou nenhum prazer, alternada com comportamentos em que o doente, para evitar o ganho de peso, provoca o vômito, abusa de laxantes e diuréticos, realiza exercícios físicos em excesso ou então mantém períodos de restrição alimentar severa. A nutricionista alerta que com frequência, os transtornos alimentares se apresentam combinados a outros distúrbios mentais, como a depressão, os transtornos de ansiedade ou os de bipolaridade, que dificultam o tratamento do paciente. 

Tratamento multiprofissional

O tratamento para pessoas que apresentam bulimia ou anorexia nervosa é avaliado por várias áreas da saúde e por diversos profissionais, portanto é interdisciplinar e multiprofissional. Em geral, fazem parte do processo um psicólogo; um nutricionista; em alguns casos o endocrinologista, quando o paciente apresenta complicações orgânicas, como anemia e infecções; e ainda um psiquiatra, caso o paciente apresente sintomas de depressão profunda. Segundo a psicóloga Débora da Fonseca, o acompanhamento psicológico é fundamental para a recuperação da autoimagem e da autoestima do paciente, bem como o apoio da família é imprescindível para a cura.
 
Débora ainda alerta que o tratamento tem suas recaídas, já que a pessoa começa a ganhar peso e a distorcer novamente sua imagem. A psicóloga afirma que a terapia de grupo pode ajudar muito no restabelecimento da saúde.  A maior barreira para que este tratamento tenha êxito, segundo Débora, é a dificuldade que o paciente tem em reconhecer que está doente e que precisa de ajuda médica. Geralmente a procura por profissionais da saúde é feita pela família. Outro obstáculo é o próprio comportamento da sociedade, que impõe um rígido padrão de beleza que somente pode ser alcançado com dietas e regimes rigorosos.
De acordo com a nutricionista e psicanalista Denise Motta, a conduta em relação ao aspecto nutricional deve estar voltada à normalização da relação da pessoa com o alimento e com o próprio corpo. Dietas rígidas devem ser evitadas e a reeducação alimentar deve contribuir para o estabelecimento de um padrão alimentar saudável e prazeroso, que não seja imposto, mas sim aceito pela pessoa.
 

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