Com elas em mãos, o atual oficial aluno da Escola de Formação de Oficiais da Marinha Mercante (EFOMM) e ex-cadete Alex Seixas, 23, prestou os seus primeiros concursos militares, aos 14 anos. “Meu tio me levou à AFA [Academia da Força Aérea] quando tinha sete anos”, relembra. Depois da visita, Seixas começou a se interessar e a se dedicar às formas de ingresso nas Forças Armadas.
“A maior dificuldade era achar algum curso ou livro que abordasse as matérias que caem nos concursos com a profundidade que as provas exigem”, diz. Além disso, segundo ele, a desilusão dos candidatos era clara. “Quando o candidato nunca passou em algum concurso militar, fica aquela impressão de que é impossível passar”, explica.
Contra as adversidades, em 2003, Seixas apostou em aulas particulares diárias, estudos aos sábados e domingos. E o incentivo dos pais foi, para ele, “fundamental” nesse processo.
“Inexplicável.” Assim, Seixas define a sensação da primeira aprovação, na Escola Preparatória de Cadetes do Exército (EsPCEx). “O alívio e a ansiedade de que você fará parte de algo ‘inatingível’, que você só lê reportagens sobre e assiste em filmes, são muito bons”, relata.
Em busca dessa sensação, Miguel Arraez, 23, universitário, prestou o seu primeiro concurso militar aos 18 anos – para a EsPCEx. “Essa vontade de prestar os concursos aumentou ainda mais quando estava servindo o tiro de guerra”, diz. Além disso, o pai e o avô, militares, auxiliaram no desenvolvimento dessa “paixão”.
Com uma rotina ferrenha de estudos, Arraez prestou os exames para APMBB, EsPCEx, EFOMM e EN, sem sucesso. No entanto, como cursa engenharia da computação, pretende realizar os exames para o Quadro Complementar de Oficiais (QCO) do Exército – uma alternativa para os civis com alguma formação superior.
Estabilidade, treinamentos militares, disciplina e a possibilidade de trabalhar em várias regiões do país são os atrativos para Arraez. E, embora reconheça a falta de recursos nas Forças Armadas e a falta de informação sobre as admissões, acredita na educação e nos demais benefícios da vida militar.
Sob o peso da farda
Para Seixas, a distorção da realidade militar tem início fora das unidades, nas propagandas das Forças Armadas. “Nunca, nenhum vídeo mostrou o aluno fazendo faxina, sendo xingado ou sequer conseguiu evidenciar o cansaço que é a rotina nas Forças Armadas. O combatente com o fuzil, na selva, cheio de camuflagem no rosto, realmente empolga. Mas o que tem por trás disso? O fato de ele ter dormido apenas duas ou três horas por dia durante três ou quatro dias já? O sol que ele é obrigado a tomar o dia todo? O incômodo da farda molhada a semana toda? Isso você não vê”, revela. “As RPs [Relações Públicas] divulgam as escolas como os jovens querem ver”, resume.
Seixas define como “um choque” a situação a que se é submetido já na adaptação do Exército. Dessa forma, o questionamento mais comum dentro da escola era: “O que eu estou fazendo aqui?”. E esse pensamento é ainda mais freqüente quando se depara à falta de patriotismo, organização, seriedade e recursos nas Forças Armadas brasileiras. “Muita gente lá dentro, nos últimos anos, tanto na Escola Naval, quanto AMAN e AFA, começou a pensar em concursos públicos. Outros só não desistem porque já estão há muito tempo lá, ou por falta de apoio ou por dificuldade financeira da família”, revela.
Após se desligar da AMAN (academia que sucede a EsPCEx), em 2006, Seixas voltou ao cursinho, entretanto com outro objetivo: o mar. Em 2007, foi aprovado na EFOMM e se matriculou no mesmo ano. Até hoje, desempenha as suas funções no Centro de Instrução Almirante Graça Aranha (CIAGA), na cidade do Rio de Janeiro.
O oficial aluno recomenda aos candidatos o conhecimento prévio da vida dentro dos quartéis. “Procurar visitar alguma escola militar, conversar com quem está ou esteve lá e adquirir provas de anos anteriores” são as dicas. Medidas simples contra os equívocos que permeiam a realidade entre as barricadas.