28/10/2009 Antropólogo Sefende Que Novas Tecnologias da Informação Favorecem Minorias Étnicas
Marina Campos – 4º Jornalismo
Viveiro: otimismo frente às novas tecnologias da informação.
Em palestra no Sesc de Piracicaba, no último dia 24, o antropólogo Eduardo Viveiro defendeu a idéia de que os novos meios de produção e disseminação de informações são muito positi-vos, pois favorecem e possibilitam a aparição das minorias étnicas e representam também uma resistência frente à tentativa das mídias de homogeneização das massas.
Viveiro, que é doutor em Antropologia Social, etnólogo americanista e professor no Museu Nacional, da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), proferiu palestra sobre o tema “A Identidade na era da sua reprodutividade técnica”. Falou sobre a relação da identidade com a tecnologia na atualidade e também da realidade do índio e de seu envolvi-mento com as tecnologias. Em sua opinião, com as novas tecnologias as minorias passam a ter mais oportunidades de mostrar suas identidades e suas culturas, bem como reivindicar seus direitos políticos e sociais.
O professor afirmou que com a tecnologia da imagem houve uma explosão de identidades. No entanto, a imagem se multiplicou e está por toda parte e tudo que compõe o mundo só existe se estiver registrado, captado pela lente de uma câmera. “Houve uma reduplicação do mundo em imagem e a realidade só existe se estiver documentada. O que não está na imprensa, na rede, não está no mundo; tonou-se imprescindível se inscrever nessa economia da imagem, é imprescindível estar conectado: quem não aparece, desaparece”, disse.
Para o acadêmico, a tecnologia da informação trouxe benefícios para a sociedade, mas está cada vez mais difícil separar o objeto de sua imagem. Viveiro defendeu que os originais desa-pareceram e o que hoje o que se tem é só a representação, que foi feita para ser circulada e consumida. “Antes o indivíduo só consumia, não produzia. Em 20 ou 30 anos, isso mudou e hoje, consumimos e produzimos imagens. Tornamos-nos inscrição e mero registro, estamos coisificados. Um exemplo disso é a nossa roupa, hoje ela é vestida pelo lado avesso, a etiqueta está do lado de fora; na minha época a etiqueta ficava para o lado de dentro. O poema Eu eti-queta, de Carlos Drumonnd de Andrade, ilustra bem o que estou falando ”, acrescentou
Público demonstrou entusiasmo com as reflexões so antropólogo
De acordo com o professor, a sociedade caminha para o excesso: “Há uma saturação de ima-gens, por um caráter obsceno, múltimplo de possibilidades e isso se aplica a tudo”. Porém, segundo ele, quando essa tecnologia chega até àqueles que têm pouca (ou quase nenhuma representatividade), há uma riqueza de possibilidades, de olhares e de perspectivas.
O antropólogo citou o exemplo de alguns grupos de índios que vivem no estado do Amazonas e que começaram a produzir suas próprias imagens. Eles, que sempre foram objeto de consu-mo para a sociedade urbana, segundo Viveiro, se cansaram de serem filmados e começaram a filmar a si mesmos. “Esses equipamentos estão mais acessíveis e baratos. Em função disso está se tornando cada vez mais comum a relação dos índios com a tecnologia. Um jovem ín-dio manipula uma câmera digital com a mesma facilidade que um jovem urbano o faz e essa tecnologia propicia uma aproximação geográfica, política e social do índio com o homem branco”, afirmou.
A filmagem que o índio faz de si mesmo, segundo contou o antropólogo, tem uma peculiari-dade: além de sua realidade ser mostrada pelo seu olhar, tendo ponto de como partida sua perspectiva, eles não gostam de editar seu material. Quando vão filmar um dos seus rituais, querem registrar tudo. “Se o ritual tem uma duração de um dia, ficam um dia filmando; suas imagens possuem uma alta percepção ao detalhe que, muitas vezes, fogem aos olhos do cine-asta”, explicou.
Para Eduardo Viveiro, os grupos, as culturas, os costumes, as identidades na era da sua repro-dutividade técnica, ganham evidência, ficam mais acentuadas e mais expostas. “Essa situação pode trazer poder para os grupos e para os indivíduos, no entanto podem ser capturados pela sua própria captura (produção de imagem), pois correm o risco de serem exotizados, estereo-tipados e até mesmo estigmatizados. Essa imagem pode ser mal interpretada, mal entendida e mal utilizada; para se ler ou interpretar uma imagem devemos sobretudo contextualizá-la”, analisou.
Edição - Karla Gigo
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