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Jogos Online
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A vida no virtual
Jovens e adultos dedicam horas em frente ao computador em jogos online de RPG
 
Brenda Bellani - 8º Jornalismo - brebp@hotmail.com
 
 
"Os jogos ativam o centro de recompensa do cérebro que estimula o bem-estar".
 
Os jogos onlinepodem ser de incontáveis estilos. Mas há uma verdade comum a todos: eles podem viciar. Este fato já não surpreende, uma vez que a internet faz parte das vidas pessoal e profissional de muitas pessoas. Para se ter uma idéia, segundo pesquisa realizada pelo Ibope Nielsen Online, o Brasil é campeão de tempo gasto na internet em computadores domiciliares entre dez países, dentre eles, potências quando o assunto é o número de contingente na web, como Estados Unidos e Reino Unido.
 
Douglas Lopasso, 21, já fez parte desta estatística. Ele diz que “todo bom viciado em jogos online tem a obrigação de virar a noite no mínimo uma vez por semana”.Quando cursava o ensino médio, Lopasso costumava jogar desde o momento que chegava em casa da escola. “O maior tempo que passei jogando jogos de RPG [Role Playing Games, ou jogos de interpretação de personagens] foi cerca de 20 horas, com intervalos entre refeições e necessidades fisiológicas. Passava a maior parte do tempo me ‘dedicando’ ao jogo. Quando não havia nada mais ‘urgente’ ou ‘interessante’ para fazer, eu estava jogando”, conta.
 
Mas, ao contrário do que é comum se achar, o vício em jogos da web não é exclusividade de crianças e adolescentes. Catarina Pires, 17, relembra o tempo em que a mãe, de 44 anos, passava na frente do computador, jogando Ragnarök (de RPG). “Ela não dava mais atenção para os filhos, perdeu o foco na família.”
 
Hoje, a mãe de Catarina trabalha e faz tratamento há seis meses com psiquiatra. “Ela estava com depressão e o jogo era a válvula de escape. Antes ela se isolava, agora está bem mais social”, revela. Catarina também foi viciada em Ragnarök e disputava o computador com a mãe. “Eu sentia necessidade de jogar”, lembra.
 
Júlio Soares, 21, mora em São Paulo e justifica as horas dedicadas ao jogo World of Warcraft à falta de opções de lazer. “O jogo ocupa o meu tempo. Trabalho das 8h às 18h, com o meu pai, e fico conectado das 20h à meia noite”, diz.
 
Soares chegou a jogar por mais tempo quando era mais novo, e, apesar do tempo que passa online, não se considera viciado. “Eu consigo dividir a internet e a minha vida pessoal. Não sinto consequência nenhuma e não deixo de fazer outras coisas pelo jogo.”
 
Válvula de escape
 
Que os jogos da internet viciam, já não há mais dúvidas. Não faltam casos nem pessoas para comprovar que esta afirmação é verdadeira. No entanto, o que ainda é mal compreendido é o que caracteriza este vício.
 
A psicóloga do Núcleo de Pesquisa da Psicologia em Informática (NPPI), da PUC-SP, Luciana Ruffo, explica que é considerado vício quando “a pessoa começa abrir mão de obrigações, faltar do trabalho ou ir mal na escola por causa dos jogos”. Segundo ela, “o tempo que a pessoa passa na frente do computador não é a característica fundamental para considerar alguém viciado, diferente do que muitos imaginam, porque muitas pessoas dependem da internet para o trabalho”.
 
O vício pode acarretar consequências na saúde física – como a lesão por esforço repetitivo – e psicológica – como sono perturbado e nervosismo. A causa do vício, no entanto, pode ser explicada. “Existe no cérebro uma parte chamada centro de recompensa que estimula o bem-estar. Os jogos não possuem elemento químico que cause o vício, como as drogas, mas também ativam este mecanismo de recompensa do cérebro”, explica a psicóloga.

O grupo do NPPI, formado por 13 psicólogos, entende o vício como uma válvula de escape: é, quase sempre, consequência de algo ruim na vida da pessoa. Por isso, é aconselhado terapia. O NPPI possui um serviço de orientação via e-mail para pessoas viciadas. “A ideia surgiu em 1997, porque recebíamos muitos e-mails pedindo conselhos sobre vício e questões psicológicas. Para quem procura ajuda do NPPI por e-mail, tentamos mapear a situação da pessoa e estimular atitudes para implementar o dia-a-dia dela”, conta Luciana.

O núcleo recebeu em 2008, uma média de 50 e-mails de pessoas buscando ajuda sobre vício em jogos. Em 2009, até o mês de abril, foram orientadas aproximadamente 20 pessoas. “É bastante coisa se for considerado que há outros vícios relacionados à internet”, diz a psicóloga. O endereço para orientações do NPPI é
nppi@pucsp.br.
 
Onde os noobs não têm vez
                                                              
Segundo o site Dicionário Informal, a palavra noob significa “novato, calouro, fraco e inexperiente”. É exatamente assim que os iniciantes se sentem quando começam a jogar RPG World of Warcraft.

Já na criação do personagem – ou mais conhecido por char, de character -, se não tiver uma orientação de quem entende sobre o jogo, o jogador pode fazer a escolha errada. É preciso escolher facção (aliança ou horda), raça (cinco opções por facção) e habilidades.

A personagem humana, warlock (uma espécie de bruxa), da facção aliança. Assim criado o char, o jogador está livre para se aventurar no mundo do Warcraf. E essa é a ideia do jogo. Com mapas, cidades, ambientes e história, o jogador é levado a um mundo paralelo, virtual.

Para jogar WoW é necessário concentração e tempo. Muito tempo. O jogo só realmente começa para quem consegue alcançar o nível máximo, o level 80, realizando pequenas tarefas, chamadas de quests. Segundo um dos jogadores que estava online, se passar uma média de duas a três horas por dia dedicadas ao WoW, vai chegar ao level 80 em cerca de dois meses.

Em qualquer level, no entanto, seu char não é nada sozinho. WoW é, também, trabalho em equipe. Uma vez logada no jogo, com o insignificante level 2, um personagem de facção rival a minha e nível avançado me matou repetidamente – no Warcraft, morre-se e ressuscita-se com frequência. A única explicação para isso é atrapalhar o andamento do jogo, uma vez que matar o personagem não melhoraria em nada o char dele.

Observar quem já é experiente jogando é no mínimo confuso. Só fazendo parte do grupo – ou guild – para entender o que se passa na bagunça formada na tela do computador e na conversa simultânea entre membros da guild no programa Team Speak. Várias pessoas falando ao mesmo tempo, como uma grande conversa coletiva no telefone.

Para quem tem o nível máximo e faz parte de um grupo, as tarefas são mais difíceis, têm hora marcada e são realizadas coletivamente. Quando o jogo começa a enjoar, a Blizzard, criadora do World of Warcraft e outros jogos da rede, lança um novo pacote de expansão. Cada expansão significa novidades, aumento de dificuldade, continuidade da história, mais coisas para fazer e mais levels a serem alcançados.

“Isso nunca vai acabar. É por isso que vicia”, digo a um jogador online. “É por isso que é legal. Que graça tem zerar um jogo e não ter mais o que fazer?”, ele responde.
 

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