Painel Online
Para começar a ler
Novo gênero da literatura tem quantia máxima de 50 letras por obra
Iuri Botão - 6º Jornalismo
“Fui me confessar ao mar. E o que ele disse? Nada.”. O texto é da escritora brasileira Lygia Fagundes Teles e faz parte do livro “Os Cem Menores Contos Brasileiros do Século”, organizado pelo também escritor Marcelino Freire. O texto não é parte de um poema, de um conto ou de um romance, ele está aí inteiro. O que você leu entre aspas é a íntegra de um microconto, gênero da literatura que pode ser definido por uma narrativa de até 50 letras, sem contar o título, e se popularizou com o lançamento do livro, de 2004, em que Freire convidou 100 escritores brasileiros de renome para escrever com essa limitação.
A origem do gênero é desconhecida, mas o pensamento por trás do desafio de se criar uma narrativa com o mínimo possível de letras e palavras pode ser vista, por exemplo, na célebre frase de Carlos Drummond de Andrade que guia escritores e jornalistas, enfim, gente que trabalha com a palavra: “Escrever é cortar palavras”, disse o modernista. “Um bom texto é aquele do qual não se pode tirar uma palavra. No microconto se exercita esse poder de síntese. Cada palavra é pensada e tem uma função muito clara na narrativa”, acrescenta Freire. Segundo ele, sua pesquisa sobre microcontos chegou ao tcheco Franz Kafka, que os escrevia em seu diário, e às frases curtas que permeiam os textos de Machado de Assis.
O desafio lançado em “Os Cem Menores...” motivou o escritor e cronista piracicabano Jaime Leitão a começar a escrever também. Poucos meses depois de ler uma matéria sobre o livro na Folha de S. Paulo, Leitão publicava o livro “Histórias Concisas”, que reúne 145 microcontos de sua autoria, entre os mais de 200 que escreveu. “Quando sento para escrever, o que não acontece sempre, saem pelo menos uns dez contos. O desafio é pensar a narrativa e a mensagem que se quer transmitir, e depois fazer o exercício de concisão”, ensina Leitão.
A novidade e a beleza dos microcontos estão nas múltiplas interpretações que eles permitem, tal como no conto de Augusto Monterosso: “Quando acordou, o dinossauro ainda estava lá”. Quem é o dinossauro? Quem estava dormindo? Era um sono real ou uma metáfora? Essas são apenas algumas das dúvidas que podem encantar o leitor, e onde mora a beleza para Freire. “Costumo brincar: diga o que quer e não encha o saco do leitor”, diz aos risos.
“O microconto tem uma narrativa fechada, mas dá margem para muitas interpretações diferentes”, afirma Freire. “As razões que levaram àquele acontecimento, o que aconteceu antes e depois e por vezes até o lugar ou os personagens estão implícitos de tal maneira que um mesmo leitor pode fazer várias leituras diferentes de um microconto”, avalia Freire.
Literatura contemporânea?
“Isso de ler microcontos pode inspirar muita gente a escrever. Mas não dá para o cara sentar no computador, escrever 100 microcontos e se chamar de escritor. O microconto é mais um gênero. De certa forma ele tem uma complexidade menor para ser feito, mas o bom microconto é feito por um escritor que também pode fazer contos, romances, poemas”, define Freire, ao defender que a literatura acompanha o tempo e os hábitos das pessoas. “É dar ao consumidor o que ele quer. Mas, assim como um escritor não pode se limitar aos microcontos, um leitor também não deve. A idéia é que eles sejam um ponto de entrada e de início para a formação de um leitor”, conclui.
O microconto tem a vantagem de poder ser lido em diferentes ambientes e não cansar o leitor. Em geral as narrativas utilizam elementos para atrair para o clímax e despertar curiosidade de ler até o final. No microconto, o começo e o final estão juntos, não há como não ler tudo. “Isso faz muita gente começar a ler. Dei um exemplar de Histórias Concisas para um conhecido. Um senhor muito simples, que não consumia literatura de forma alguma e se encantou com o tipo de texto. Encontrei com ele que me disse orgulhoso: já li seu livro 17 vezes. Como dizer que ele ainda não está lendo?”, questiona Leitão.
Na Espanha existem prêmios e concursos para microcontistas e, segundo Freire, a tendência é que o mesmo aconteça no Brasil e que esse tipo de literatura se popularize gradativamente. “O perfil do leitor brasileiro pede isso. Meu objetivo é provar que literatura pode ser diversão e entretenimento para todos como é a televisão ou o cinema. Geralmente a literatura é ensinada e estudada como algo descolado da realidade. Não deveria ser assim”, diz.
Evolução
Quando o assunto é o rumo que os microcontos tomam em relação à qualidade textual, Jaime Leitão e Marcelino Freire concordam que há uma evolução do próprio escritor ao se dedicar a escrever um microconto. “Conto bom não tem tamanho, isso é fato. Mas como disse, quando se tem um esforço para reduzir, você vai deixar ali não só o que é mais importante, mas o que é fundamental mesmo. A literatura é cheia de clichês, de adjetivos, advérbios. Esses elementos enriquecem uma história, é claro, mas muitas vezes são colocados pelo compromisso de se encher centenas de páginas. Para mim os microcontos são uma lição de literatura”, define Freire.
Para Leitão, ser breve é diferente de ser superficial. “Os microcontos são mais rápidos de ler, mas em geral são reflexivos, e muitas vezes profundos. Essa técnica também é algo que se incorpora a outros gêneros em que a pessoa venha a escrever”, diz Leitão, que aconselha e difunde os microcontos para seus alunos, já que também dá aulas de redação.
|
|
|