Painel Online
Em ritmo de cura
De acordo com o INC, um ano após a instalação de caixas de som na UTI houve uma redução de 40% no consumo de tranquilizantes e sedativos
Aline Cia Angelin - 8º Jornalismo - linnecia@hotmail.com
"Musicoterapia contribui para melhora de diversas patologias".
A idéia de que sons e músicas são capazes de ter ação física sobre o organismo parece um completo absurdo para os que ainda não tiveram um contato com o assunto. O corpo humano é constituído por 70% de água, que, por sua vez, é um condutor dos sons. Portanto, qualquer som pode, em tese, ressoar em todas as células.
Uma experiência disponível em vídeo no site “Alma Biônica”: demonstra de maneira clara os efeitos das ondas sonoras. Esse estudo comprova (visualmente) que o sal disposto em um determinado recipiente toma formas variadas de acordo com o som que o atinge. E o que há de mais intrigante nessa experiência? Concluir que se as ondas sonoras são capazes de transformar e interagir com objetos sólidos teriam também efeito concreto no organismo humano. É possível imaginar o que ocorre na célula quando interage com a música, afetando, assim, as partículas, mente e órgãos internos.
A Musicoterapia (MT) é uma terapia não verbal, constituída pelo uso de sons, harmonias, instrumentos musicais e ritmos, indicada para diversas patologias, orientações e acompanhamentos, entre eles: acompanhamento de gestantes, crianças hiperativas e desatentas (DDA e TDAH), hipertensos, depressão, estresse, ansiedade, síndrome do pânico e pacientes hospitalares.
Segundo a musicoterapeuta Simone Cunha, um dos principais diferenciais desse tratamento é não ser verbal. “Numa terapia tradicional, o paciente pode manipular seus pensamentos e responder as perguntas que o psicólogo faz da maneira que quiser. Ele pode mentir, mudar o rumo da situação a seu próprio favor, enquanto na MT não há como fugir dos conteúdos internos que vão surgindo e automaticamente são postos para fora de forma prazerosa e sem constrangimento”, explica.
Para o estudante de engenharia ambiental, Isaac Vicente Ferreira, 48, a terapia auxilia nos estudos e na qualidade do sono. “Depois que comecei a participar de sessões de musicoterapia percebi que adquiri maior disposição para estudar e melhor desempenho nas provas. Comecei também a dormir melhor, com mais tranquilidade". No caso de problemas cardiovasculares, a MT comprovou melhorias significativas nos pacientes. De acordo com o Instituto Nacional de Cardiologia (INC), um ano após a instalação de caixas de som na UTI, houve uma redução de 40% no consumo de tranquilizantes e sedativos.
Como em toda terapia, na MT o profissional deve estar preparado e assim aplicar o tratamento com responsabilidade sem oferecer riscos ao paciente, como explica a musicoterapeuta Josy Guimarães. “Estudiosos comprovaram que alta frequência de ondas sonoras pode aumentar a dor. Então imagine as complicações que podem ser geradas por um profissional mal preparado, que fizer uso, por exemplo, de altas frequências quando se procura exatamente diminuir a dor, como em pós-operatório ou casos de fibromialgia (dor crônica e difusa pelo corpo)?".
Mesmo com a importância da terapia, o mercado de trabalho para essa área é limitado. Existem musicoterapeutas há muitos anos lutando para conquistar espaço. A Organização Mundial da Saúde (OMS) reconhece a musicoterapia como uma profissão emergente no Brasil. No entanto, só nas grandes capitais existem profissionais atuando em hospitais de ponta e em clínicas conceituadas.
Segundo Simone, a ignorância com relação à profissão por parte de outros profissionais é um dos maiores problemas enfrentados pela musicoterapia. “A falta de conhecimento por parte dos profissionais da saúde, da educação e da população em geral é um dos principais problemas. Cheguei a ouvir de um médico: ‘E se a minha equipe não acreditar na música? ’ Achei essa colocação absurda, pois ninguém precisa acreditar na música. Basta acreditar no profissional que a está utilizando e deixar que faça o seu efeito. Já pensou se todos nós começássemos a perguntar para os médicos: ‘E se eu não acreditar no seu remédio?’”. “Dá na mesma”, conclui.
O que é preciso para ser um musicoterapeuta?
Algumas universidades exigem no processo seletivo que os profissionais interessados já possuam conhecimento musical, sejam familiarizados com determinados instrumentos e tenha uma voz afinada. Outras realizam um psicodiagnóstico que irá traçar o perfil do interessado para ver se há condições de aprender música, juntamente com as matérias correlatas da grade curricular da área médica: Neurologia, Psiquiatria, Psicologia e desenvolvimento humano.
Segundo a musicoterapeuta e professora da Universidade Federal de Goiás, Claudia Regina de Oliveira Zanini, o curso de musicoterapia tem dois pontos essenciais. O primeiro é fazer com que o profissional compreenda a musicoterapia como atividade ética e humanística, de modo a atender os propósitos e funções nos campos científico, social, educacional e musical. E o segundo é fazer com que o profissional demonstre conhecimento coerente com as necessidades da profissão de musicoterapeuta, garantindo o exercício de sua função em escolas, clínicas, hospitais, empresas, grupos sociocomunitários, através de ações preventivas, de reabilitação e/ou tratamento, como terapeuta integrado nos propósitos específicos interdisciplinares, nas diferentes equipes.
O tempo do curso de musicoterapia pode variar de acordo com as instituições. Em média, dura entre três e quatro anos.