Reflexo do sonho pelo retrovisor
Por Ronald Gonçales 4º. Semestre – Jornalismo – Unimep “Sampa”, letra de Caetano Veloso, nasceu em 1978, como homenagem de um dos maiores feras da MPB à cidade de São Paulo. Aos quatro anos de idade, um apaixonado pela metrópole nem imaginava que tal canção o acompanharia até a concretização de objetivos ousados e que exigem coragem. E é essa música que define Marcos Brogna, 36 anos, jornalista que atualmente presta assessoria ao psicoterapeuta Léo Fraiman na terra da garoa e é pós-graduando pela Cásper Líbero. Veloso canta: “por que és o avesso do avesso/do avesso do avesso” e Brogna exibe, por meio dos olhos verdes claros protegidos por óculos de armação preta e modelito “fashion”, o que pensa desta frase. “São Paulo é o avesso do avesso, não tem lado, não tem fim. Nós somos assim”. E não é só a voz num tom mais emotivo, nem os olhos cor da natureza que brilham mais ao falar da capital paulista: as mãos, que se expressam o tempo todo junto do jornalista, reiteram o quanto a cidade significa para ele. “Ia ao Playcenter e chorava sempre que retornava. Não pelo parque, mas pela cidade. Sempre tive uma ligação muito forte com São Paulo”, diz. A loucura por Sampa aumentou quando morou lá para fazer a graduação, na Cásper Líbero, de 1995 a 1998. Porém, concluindo os estudos, os sonhos pareciam tornar-se impossíveis e ele teve que voltar à terra natal, Americana – interior de SP. Mal sabia Brogna que, na verdade, os sonhos tinham que ser apenas adiados. Tempo esse que o jornalista dedicou-se à experiência de editor-chefe do jornal americanense “O Liberal”. Conhecimentos que deram a Marcos responsabilidade, principalmente por ser início de carreira. Depois de 12 anos na função, porém, ele se viu num choque de ideias. “Não me vi pleno dos meus valores de jornalista. Foi um grande momento da minha vida. Saía daquela zona de conforto ou arriscaria?”. Depois dessa reflexão, já em férias da empresa de comunicação em que atuava, não teve dúvida: era o momento de colocar em prática os planos que ficaram adormecidos por um tempo. Nas férias, estreitou contato com Fraiman. Realizou três reuniões – suficientes para que o psicoterapeuta mostrasse interesse em tê-lo entre os funcionários – e, antes do retorno ao trabalho, articulou uma reunião com a direção do jornal, para então pedir demissão e partir para o encontro, mais do que profissional, consigo mesmo. Ao sair de “O Liberal”, depois de ter acertado detalhes, ainda com medo, Brogna conta que entrou no carro, olhou no retrovisor e disse a si mesmo: “Eu tenho orgulho de você”. Era, talvez, o maior passo dado por ele para a realização do objetivo que o acompanhava há anos: morar em São Paulo. Ao lembrar do contato com Fraiman, o assessor conta que a primeira sintonia que teve com o atual chefe foi exatamente no dia do Natal, 25 de dezembro de 2009. “Estava em casa e uma amiga, que era minha professora também, me ligou e revelou que tinha uma vaga na assessoria de um cara com meu perfil, enchi-me de esperança e comecei os contatos”. A magia do Natal também reservava ao jornalista outra oportunidade. Naquele mesmo período, Paulo Roberto Botão, coordenador do curso de Jornalismo, da Universidade Metodista de Piracicaba (Unimep), ofereceu uma vaga emergencial na graduação para as turmas de Publicidade e Propaganda e Jornalismo. O fato, claro, deixaria a agenda dele completamente disputada. “Mas sou muito ‘pilhado’ e aceitei depois de receber o aval de Fraiman”. Mas a vida, que adora pregar peças, não reservou somente boas notícias no final de 2009. Com voz embargada, ele lembra a morte do pai, Gerson Brogna, aos 61 anos, também naquele período. Este tipo de notícia tira o chão de qualquer um. Ele conta emocionado que “o gerente da fábrica onde meu pai trabalhava me ligou, dizendo que havia um problema com ele. Passei pegar minha mãe e fomos até o hospital e, ao chegarmos lá, avistando um funcionário, questionamos sobre meu pai e ele respondeu que havia morrido. Entramos em choque. Foi o dia mais triste da minha vida”. A relação com o pai era muito próxima. Gerson costumava perguntar ao filho, todas as noites, quando chegava de O Liberal: “e lá, como ‘ta’?”. Agora, já com malas prontas para a metrópole, Brogna não tem mais como saber como o pai responderia à chance que a vida lhe dava naquele momento. “Ele torcia muito para que eu fosse para lá, para que desse certo”. Se na alma há tanta sensibilidade e sonhos, no corpo Brogna mostra um lado mais rebelde, com seis tatuagens espalhados pelos braços. Os desenhos são variados: símbolo do seu signo Aquário, a letra “M”, o sol tribal, um bracelete e a estrela náutica, esta última com significado especial: “As estrelas náuticas norteavam os antigos navegantes para alcançarem os novos horizontes. Fiz o desenho assim que fui estudar em São Paulo”. Rebeldia que só pára no corpo! Sensível ao falar de amor e fã da MPB, o jornalista emenda letra de Cazuza e afirma que “quer a sorte de um amor tranquilo. Para mim, o amor é amplo e incrivelmente fantástico. É uma troca, uma forma de se compartilhar, de se dividir, de ser livre com outra pessoa”. Ele diz que pensa em ter alguém, mas não quer ter filhos e afirma que “ser sozinho é um saco”, frase que revela o grande medo dele: a solidão, sobretudo em Sampa. No entanto ele diz entender que não tem jeito, pois numa cidade tão grande, tão movimentada, tão cheia de gente que corre para lá e para cá, a solidão faz parte do cotidiano: “Esse é o lado triste de São Paulo, a solidão”. Triste ou não, com medo ou não, o rapaz admirado pelos amigos alunos e respeitado pelos profissionais de sua área, espera que na própria vida tudo sejam desafios e concretizações, similar à canção que sintetiza São Paulo: que “alguma coisa sempre aconteça no seu coração”. |
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