23.09.2010
Unimep exibe clássico de 1974 e agrada o público
Angélyca Paiva e Vladimir Catarino
Até aquela ocasião ele ainda não sabia que o fogo queimava, e descobriu isso quando espontaneamente encostou o dedo na chama da vela; uma lágrima escorreu pelo seu rosto já transformado pela dor. Nesse momento, o público que assistia ao filme e no início não demonstrava tanto interesse, agora está envolvido pela trama e se comove com a ingenuidade do personagem nesta cena.
Essa é umas das passagens mais marcantes do filme “O Enigma de Kaspar Hauser”, que narra a história de Kaspar, que passou cerca de 20 anos dentro de um calabouço, sem contato com a sociedade e seus valores e depois desse tempo é inserido no convívio social. A partir de então, ele é forçado a se adaptar e encontra inúmeras dificuldades. “(...)quando ele é introduzido no meio social um conflito é gerado, pois ele não compreende espontaneamente os valores, tal como Deus e os critérios de verdade.” explica Natália Puke, aluna do 4º semestre de Filosofia e coordenadora do “Sessão 3C - Cinema, Conceito e Crítica”, evento onde foi exibido o clássico. Natália revela que o projeto “Sessão 3C ” estreou em abril e surgiu em um diálogo entre ela e um amigo, Almir, que também faz parte do Centro Acadêmico do Curso de Filosofia. “Estávamos conversando sobre as possibilidades de fazer com que o curso tivesse mais visibilidade na universidade, ao passo que, ao mesmo tempo, os alunos do curso e também de outros, pudessem encontrar um espaço para refletir sobre as problemáticas existenciais e socioculturais e também conhecer mais sobre a sétima arte, ou seja, sobre o verdadeiro cinema”, conta.
Além de provocar risos, envolver com o drama e intrigar com o final, o filme trouxe elementos para o debate proposto. A discussão foi conduzida por Nilton Júlio de Faria, doutor em Psicologia Social , e Josiane Maria de Souza, coordenadora do curso de letras da Unimep e doutora em Teoria Literária. Natália esclarece a ligação entre o filme e o debate, “(...)isso nos leva a questionar se nascemos ou nos tornamos humanos, uma vez que percebemos, no filme, que as formas simbólicas são introjetadas através do convívio social. Neste sentido, podemos dizer que nascemos naturais desprovidos desses atributos, mas ao posso que socializamos com as pessoas e o mundo que nos circundando passamos a ser culturais". A coordenadora estima que cerca de cem pessoas estiveram presentes, mas a maioria saiu logo após o término do filme e não acompanhou o debate. Um grupo de alunos do curso de Química faz parte dessa maioria, mas apesar disso afirmam ter gostado do filme. “Viemos apenas porque a nossa professora nos incentivou, mas acabei gostando do filme”, diz aluna Luciana Novilho. Ela afirma que o que chamou sua atenção foi a capacidade de aprendizagem do personagem, que mesmo depois de ficar isolado tanto tempo, conseguiu se desenvolver e aprendeu a viver em sociedade, apesar das dificuldades. No grupo de alunos, apenas uma revelou não ter gostado. “Pra mim não agregou, pois não compreendi exatamente a história”, afirma Gisele Tobaldini. Natália acha que poucos alunos compreendem verdadeiramente a proposta do projeto Sessão – 3C, mas acredita que seja possível incentivar essa cultura - de assistir filmes alternativos – e além de divulgar o bom cinema, fazer com que as pessoas tenham um novo olhar sobre as telas e ao mesmo tempo repensem sobre sua existência. “Aprendemos a linguagem e os valores por intermédio do hábito e da repetição, portanto, se persistimos nessa atividade, isto é, na execução do projeto, quem sabe seja possível ocasionar alguma mudança”, acredita. Para outras informações sobre os projetos do Curso de Filosofia, acesse: http://immanens.blogspot.com/ O filme
O Enigma de Kaspar Hauser (1974)
Fonte:cinema.uol.com.br "Cada um por si e Deus contra todos" é o título original que o diretor Werner Herzog tirou de "Macunaíma", de Mario de Andrade, e fala mais sobre o filme do que o neutro título nacional, "O Enigma de Kaspar Hauser".
Herzog, um dos grandes nomes do cinema alemão, usou a história real de Kaspar Hauser, infeliz rapaz afastado da sociedade (supõe-se que tivesse origem nobre e que havia sido escondido por problemas de sucessão ou bastardia) e que tenta desajeitadamente compreende-la, para refletir sobre a incerteza de tudo diante dos golpes do destino e sobre a artificialidade do que chamamos de normalidade.
Hauser enfrenta com perplexidade as convenções sociais, os dogmas religiosos, as certezas científicas, vendo tudo com olhos virgens e puros e, portanto, desabituados a enxergar como normal o que assim foi estabelecido. Daí surgem momentos geniais, como seu embate com o professor de lógica, com os clérigos, a discussão sobre a vida das maçãs, o circo de aberrações.
Herzog, que gosta de personagens que não se sentem à vontade no mundo e procuram mudá-lo, conduz o filme no limite entre o cômico e o trágico, muito ajudado pela peculiar interpretação de Bruno S., que não era ator profissional. Ele passou toda sua juventude em instituições para doentes mentais e foi visto por Herzog em um documentário. Fez apenas mais um filme, "Stroszek", novamente com o diretor (que tinha um infinito trabalho para fazê-lo interpretar), e um curta-metragem obscuro.
Talvez por isso seu Kaspar Hauser é tão digno e seguro, um ser humano puro e sonhador. Sua atuação marcante, o clima onírico e atemporal criado por Herzog e as idéias que o filme discute tornam-no uma pequena obra-prima, imperdível. Ganhou o prêmio especial do júri em Cannes.
O pianista cego é interpretado por Florian Fricke, líder do grupo Popol Vuh, habitual colaborador de Herzog. Edição de boa qualidade traz apenas biografia de Herzog e trailer como extras.
Assista ao Trailer
Edição: Angélyca Paiva
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