Há 12 anos a praticante de batuque de umbigada Benedicta Pereira Ribeiro, na época aos 79 anos, sofreu um aneurisma. Ao sair do hospital, o susto da família: ela não conseguia falar ou andar. Dançar, menos ainda. Parecia o fim da longa vida da senhora negra que tanto se orgulhava de suas origens. Isso muito antes que alguém pudesse imaginar que haveria um dia ou uma semana da consciência negra como vivemos hoje.
Sabendo da paixão da mãe, Esmeralda Helena Ribeiro, que nunca tinha participado do batuque, decidiu que não ia jogar a toalha. “Levei minha mãe até lá só para assistir, pensando que talvez pudesse fazer bem a ela”, relembra. “Em pouco tempo me apaixonei pela dança e comecei a participar. Aos poucos minha mãe foi retomando os movimentos, a fala, e voltou a dançar”, conta Esmeralda.
O aparente ‘milagre’ operado pelo batuque fez a tradição, que já era forte na família, se intensificar ainda mais. “Depois daquele dia não paramos mais de ir, e cada vez mais minha mãe recuperou a forma e continuava dançando. Minha neta, que está com 9 anos, já nasceu em meio à tradição e aprendeu a dançar e andar ao mesmo tempo, tudo junto. Se depender dessa família essa tradição nunca vai acabar”, garante ela.
A neta é Victória Cristina de Toledo, 9, que além da umbigada, também dança samba-lenço, jongo e congada. “O meu favorito é o jongo. É parecido com o batuque, mas em vez de umbigar, a gente roda, faz o corrupio”, ensina a pequena. Tia de Victória, Fernanda Cristina de Toledo estuda educação física na Unimep e também é praticante da dança. “No começo só assistia, porque todo mundo participava. Agora acabei entrando na dança também, literalmente”, brinca.
Para a família, a consciência negra não precisaria de dia. "As próprias letras das músicas de batuque falam de amor, mas também de raciscmo. Isso de consciência é muito bonito para as pessoas verem, mas não acredito que o preconceito um dia vai acabar", afirma Esmeralda.
Início Assim como a neta, Benedicta começou no batuque ainda menina
Hoje, aos 91 anos, Benedicta se lembra do início de tudo, quando, aos 5, dançou pela primeira vez. “Meu avô, Bonifácio Jesuíno de Sousa é que me ensinou. A gente morava na zona rural, um sítio chamado Rio Acima, pra lá do Monte Alegre”, esclarece a piracicabana.
Ela também viveu bons momentos no Grupo de Batuque de Umbigada de Piracicaba, Capivari e Tietê, fundado em 1957, do qual ela e toda a família fazem parte até hoje. “Naquela época (décadas de 70 e 80), nosso grupo tinha cerca de 50 pessoas, era um ônibus cheio para viajar para Capivari, Tietê, e principalmente Olímpia”, conta, mostrando orgulhosa, ao lado da bisneta, o Diploma de Reconhecimento de Mérito e a Medalha Folclore e Tradições Populares João Chiarini, que recebeu da Câmara Municipal de Piracicaba em 2008, e da Secretaria Municipal da Ação Cultural, em 2009, respectivamente.
"Hoje falta gente para tocar instrumentos, que também já não são como eram antigamente”, explica Benedicta. “Estamos passando por uma renovação, com jovens começando a participar do grupo. O problema é que eles trabalham, estudam, não têm tempo para se dedicar. Não conseguimos nos reunir periodicamente”, complementa Esmeralda. “Eles e as meninas pequenas ainda estão aprendendo. Por enquanto não conseguem umbigar do jeito que tem que ser, mas um dia vão ficar bons”, encerra a matriarca. Apesar da opinião de que os jovens ainda não chegaram lá, ela não é adepta da máxima ‘quanto mais velho, melhor’. “Eu, por exemplo, já estou passada”, brinca.
A origem do batuque de umbigada, também conhecido como tambú, data do século 17, em países como Congo e Angola, na África. Atualmente, Piracicaba é um dos poucos lugares em que ainda é praticado.
A dança, caracterizada pelas ‘umbigadas’ – batidas dos ventres dos dançarinos – era realizada, originalmente, em locais chamados ‘terreiros’, terrenos com leve inclinação em que os homens ficam na parte de baixo e, as mulheres, na parte de cima. Conforme os batuqueiros puxam o refrão, os homens repetem um a um, até que todos saibam. Eles vão então ao encontro das mulheres, que também repetem até decorar. Quando todos sabem, começa a dança, e todos cantam. A tradição manda que o batuque comece à noite e termine ao raiar do dia. Segundo Fernanda Cristina de Toledo, “um batuque desses, que vai de um dia até o outro, hoje em dia é raro de se ver, mas aí sim é que vale a pena”.
Também faz parte do ambiente uma fogueira, em que são afinados os instrumentos como o tambú (de onde vem o nome da dança em algumas localidades), um grande tambor de madeira, tocado pelo mestre batuqueiro, e o quinjengue, um tambor menor, feito de couro. Também compõem a lista de instrumentos o guaiá, ou chocalho, e a matraca, que é nada mais que cabos de madeira que são batidos na extremidade aberta do tambú.